12.5.17

Mal contato

É meu terceiro vibrador que morre.
Mal contato.
Parece simples, né? Mal contato.
É só juntar uns fios, uns cabos.
Se abrir a maquininha, tá cheio de chip.

Parecem cidadezinhas
com prédios, ruas e conexões.
Aquele prédio ali é o meu. O seu é no outro lado da cidade.
Se a gente pegar um onibuzinho consegue chegar rapidinho.

Mas você não quer.
Nem meus cabos, meus fios ou meus chips querem.
É só uma questão de mal contato.
Parece tão simples, né?
Vou ter que usar meus dedos.

Mas eu queria os seus.

7.5.17

Morte na Família

Nos últimos anos duas amigas muito próximas perderam seus pais de repente. O que você fala numa hora dessas? Ele tá num lugar melhor? Longe de você e da sua família que perdeu um provedor prematuramente?

Ontem minha tia avó morreu. Tia avó. Não foi de repente. Tinha 95 anos, alzheimer e fazia meses que estava definhando no hospital. Foi um puta alívio. Só fico chateada pelo apartamento gigante a uma quadra do Leblon que eu não vou herdar. Tia avó. Mas adorava ela pra caralho. De verdade. Quando ela ainda tinha cabeça, era super engraçada. E quando não tinha, era um doce. Mas não foi câncer, não foi de repente, foi um alívio. Pobre Tante, parou de sofrer. Foi igual o Tom que decidimos sacrificar depois de 17 anos cuidando da nossa família. Um puta alívio.

Fui com meus pais pro velório. Da tia avó, não do cachorro. O Tom teve uma cremação comum com outros cães sacrificados. Não pedimos as cinzas. Não quero guardar nem as cinzas dos meus pais. Energia tem que circular. 

Fui no velório. Meu pai já tava lá. Fui com a minha mãe. A cerimônia era no último andar de um shopping center enorme, teto de vidro e tudo. Teoricamente eu sabia chegar, mas eu sempre me perco, ainda mais em lugares que não conheço. Com a minha mãe tem que usar as rampas. Nunca vi rampas tão íngremes, era como surfar no piso do prédio. "Rio de Janeiro," eu disse pra minha mãe. "Tudo é zoado aqui." E era na porra do último andar. Tinha hora pra chegar. Antes do Shabbat, me disseram, não deixa escurecer.

Último andar. E nunca chegava. Rampas e escadas rolantes e elevadores e nunca chego lá. Um andar depois do outro e sempre tem mais um. E minha mãe do lado, cabelo branco e bengala, não aguenta mais andar. Só quer poder dar tchau pra Tante. E escada rolante e rampa de montanha russa e elevador. Cadê a porra da sinagoga?

E vimos o cortejo, lá longe, lá embaixo. Sei lá de onde saiu. Acho que acabou o Shabbat, deve estar acabando. A Tante está lá, fresca como se tivesse 70 anos, sorrindo, cabelo branquinho, no caixão aberto cheio de flores brancas. Atrás dela, o rabino. Segurando o caixão, meu pai. Nunca o vi tão frágil, cabelos brancos e cara de triste. Como é que deixaram um senhor desses carregar esse caixote?Nunca tinha percebido o quanto eles frágeis, meus pais. O quanto estavam velhos, o quanto mais eles envelheceriam todos os dias. Quanto tempo resta até ter mais uma morte na família? Quem vai carregar o caixão do meu pai?

E eu, que só tinha por obrigação achar o caminho, nem sei onde é que estou.

14.4.17

O Labirinto

Correu pelo labirinto. Dez, vinte, infinitas vezes. Cantos intermináveis. Parecia que corria e nunca conseguia sair. Sua respiração era curta e fragmentada. Os pensamentos corriam tão rápido quanto seus pés. É por aqui, dizia a cabeça. Não, por aqui. Depois da angústia e da desesperança, vinham as náuseas.

Sentou no chão. Frio e sozinho, começou a chorar, como qualquer garoto faria.

– Ei - veio uma voz de dentro de sua cabeça.

O garoto olhou o canto musguento da parede. Em cima das plantinhas, estava uma salamandra de fogo, quase fora de lugar.

– Ei - disse a voz de novo.

O garoto piscou. A salamandra mostrou a língua feita de labaredas.

– Tá perdido, cara?

– Preciso sair daqui - respondeu, em um único sopro.

– Primeiro você tem que relaxar.

Bruno revirou os olhos. Como conseguiria relaxar preso aqui?

– Calma, cara - disse a salamandra. - Desculpa. Ninguém consegue se acalmar quando pedimos calma, né? O segredo é respirar. Inspira uma vez. Duas, três. Agora solta tudo. Isso.

O menino respirou aos poucos, levantando as mãos. Os batimentos cardíacos começaram a desaceleraram e os pensamentos ficavam mais claros.

Em sua mente, as paredes foram se desfazendo. Tijolo sobre tijolo ruiam ao chão. O céu azul, pouco visível acima de si, tomou conta de todo o seu entorno.

Ele abriu os olhos. Sentiu um comichão nas costas. Sorriu para a salamandra.

Abriu as asas que esqueceu que tinha e voou para fora do labirinto.

18.1.17

Devoradora de Mundos

Devo ser algum tipo de assassina serial de homens, que escolhe os fracos, suga toda a sua energia vital e os deixa morrer, lentamente, enquanto eu triunfo. Deve ter alguma coisa a ver com minha vênus em escorpião e minha lua em áries que devora tudo e quer tudo junto, agora. Deve ter. Não aguento esperar, amar aos pouquinhos, odeio dividir. Os homens que me adoravam, passavam semanas comigo, nossa, você é tão especial, é perfeita, mas amor? Amor é outra coisa. Melhor esperar pro amor de verdade vir. E o amor de verdade não está aqui. Com certeza tem a ver com meus pais que também nunca se amaram. E eu, aprendendo com quem sempre me deu o melhor exemplo, continuo incapaz de receber amor, vivendo de migalhas, aceitando o que sobra pelo caminho. Fingindo que o amor é outra coisa, que não faz diferença. Eu sei lá o que é amor. Melhor ler Bauman e parar de chorar sozinha no banheiro. Melhor continuar devorando os homens. Um por um e suas energias vitais. Algum dia serei a grande besta das galáxias, reinando suprema e me alimentando de todas as vidas que engoli.