25.7.17

Estou sempre com fome

Queria saber se minhas amigas sentem essa fome toda que eu sinto
É uma fome que me persegue o tempo todo
Uma fome de quê?

Minhas amigas não sentem essa fome toda
É por isso que elas são magras
Que arrumam namorados
Que casam
Que engravidam
E continuam magras

Elas nunca têm fome

Talvez eu nem quisesse um namorado
Talvez eu só quisesse

Minhas amigas nunca têm fome
Elas estão sempre de dieta
Leite dá espinha
Queijo entope as veias
Chocolate faz mal pro cabelo
Elas arrumam o cabelo com mil produtos

Eu tenho preguiça de arrumar o cabelo
É por isso que corto ele bem curtinho

Elas estão sempre mudando de cor
Gastam fortunas com coisinhas para a casa
que dividem com os namorados
Cada uma enche os buracos como pode

A fome que eu sinto é por coisas
que nunca vou conseguir
comer

Mais um poema que fiz para você

Os morangos mofaram
enquanto trepávamos

Joguei fora
três litros de sopa
estragada

Comi os morangos
com mel
doces e podres

como nós dois

Preciso mesmo
de decepções
para escrever
poesia


27.6.17

The Dream Enchantress

No domingo, chegou em casa o Tarot mais bonito do mundo. É um portal para outro mundo e é meu. Comprei sem ver todas as cartas, na promoção, numa loja que não sabia se entregaria. Chegou. Perfeitinho. Nem acredito que tenho uma coisa tão bonita.

Semana passada comecei a trabalhar num lugar novo. Faço exatamente o que gosto, respeitam meu trabalho e me tratam bem. Eu nem acredito. Fico logo procurando os erros nos contratos, as pegadinhas, os mal entendidos. Até o baralho disse pra eu deixar de ser tonta e aproveitar.

Não estou gorda ou magra demais. As feridas na minha pele estão sarando. Não sinto vontade de beber sozinha, à noite. Pela primeira vez em anos, tenho dinheiro. Fico procurando defeitos nos espelhos pra ver se acordo do transe.

Deveria estar na Alemanha? Deveria estar em Nova Iorque? Deveria ainda estar tentando viver da minha arte? Decidi parar de fugir de mim mesma. Minha história vai me seguir para qualquer lugar. Prefiri fazer as pazes com as entrelinhas, viver com calma, preparar o jantar todos os dias.

Hoje teve queijo. Teve baralho novo. Teve amigos. Não teve espaço para a solidão.

Eu, que quando sou triste, sou Kafka, não sei se me reconheço agora que estou feliz.

12.5.17

Mal contato

É meu terceiro vibrador que morre.
Mal contato.
Parece simples, né? Mal contato.
É só juntar uns fios, uns cabos.
Se abrir a maquininha, tá cheio de chip.

Parecem cidadezinhas
com prédios, ruas e conexões.
Aquele prédio ali é o meu. O seu é no outro lado da cidade.
Se a gente pegar um onibuzinho consegue chegar rapidinho.

Mas você não quer.
Nem meus cabos, meus fios ou meus chips querem.
É só uma questão de mal contato.
Parece tão simples, né?
Vou ter que usar meus dedos.

Mas eu queria os seus.

7.5.17

Morte na Família

Nos últimos anos duas amigas muito próximas perderam seus pais de repente. O que você fala numa hora dessas? Ele tá num lugar melhor? Longe de você e da sua família que perdeu um provedor prematuramente?

Ontem minha tia avó morreu. Tia avó. Não foi de repente. Tinha 95 anos, alzheimer e fazia meses que estava definhando no hospital. Foi um puta alívio. Só fico chateada pelo apartamento gigante a uma quadra do Leblon que eu não vou herdar. Tia avó. Mas adorava ela pra caralho. De verdade. Quando ela ainda tinha cabeça, era super engraçada. E quando não tinha, era um doce. Mas não foi câncer, não foi de repente, foi um alívio. Pobre Tante, parou de sofrer. Foi igual o Tom que decidimos sacrificar depois de 17 anos cuidando da nossa família. Um puta alívio.

Fui com meus pais pro velório. Da tia avó, não do cachorro. O Tom teve uma cremação comum com outros cães sacrificados. Não pedimos as cinzas. Não quero guardar nem as cinzas dos meus pais. Energia tem que circular. 

Fui no velório. Meu pai já tava lá. Fui com a minha mãe. A cerimônia era no último andar de um shopping center enorme, teto de vidro e tudo. Teoricamente eu sabia chegar, mas eu sempre me perco, ainda mais em lugares que não conheço. Com a minha mãe tem que usar as rampas. Nunca vi rampas tão íngremes, era como surfar no piso do prédio. "Rio de Janeiro," eu disse pra minha mãe. "Tudo é zoado aqui." E era na porra do último andar. Tinha hora pra chegar. Antes do Shabbat, me disseram, não deixa escurecer.

Último andar. E nunca chegava. Rampas e escadas rolantes e elevadores e nunca chego lá. Um andar depois do outro e sempre tem mais um. E minha mãe do lado, cabelo branco e bengala, não aguenta mais andar. Só quer poder dar tchau pra Tante. E escada rolante e rampa de montanha russa e elevador. Cadê a porra da sinagoga?

E vimos o cortejo, lá longe, lá embaixo. Sei lá de onde saiu. Acho que acabou o Shabbat, deve estar acabando. A Tante está lá, fresca como se tivesse 70 anos, sorrindo, cabelo branquinho, no caixão aberto cheio de flores brancas. Atrás dela, o rabino. Segurando o caixão, meu pai. Nunca o vi tão frágil, cabelos brancos e cara de triste. Como é que deixaram um senhor desses carregar esse caixote?Nunca tinha percebido o quanto eles frágeis, meus pais. O quanto estavam velhos, o quanto mais eles envelheceriam todos os dias. Quanto tempo resta até ter mais uma morte na família? Quem vai carregar o caixão do meu pai?

E eu, que só tinha por obrigação achar o caminho, nem sei onde é que estou.

14.4.17

O Labirinto

Correu pelo labirinto. Dez, vinte, infinitas vezes. Cantos intermináveis. Parecia que corria e nunca conseguia sair. Sua respiração era curta e fragmentada. Os pensamentos corriam tão rápido quanto seus pés. É por aqui, dizia a cabeça. Não, por aqui. Depois da angústia e da desesperança, vinham as náuseas.

Sentou no chão. Frio e sozinho, começou a chorar, como qualquer garoto faria.

– Ei - veio uma voz de dentro de sua cabeça.

O garoto olhou o canto musguento da parede. Em cima das plantinhas, estava uma salamandra de fogo, quase fora de lugar.

– Ei - disse a voz de novo.

O garoto piscou. A salamandra mostrou a língua feita de labaredas.

– Tá perdido, cara?

– Preciso sair daqui - respondeu, em um único sopro.

– Primeiro você tem que relaxar.

Bruno revirou os olhos. Como conseguiria relaxar preso aqui?

– Calma, cara - disse a salamandra. - Desculpa. Ninguém consegue se acalmar quando pedimos calma, né? O segredo é respirar. Inspira uma vez. Duas, três. Agora solta tudo. Isso.

O menino respirou aos poucos, levantando as mãos. Os batimentos cardíacos começaram a desaceleraram e os pensamentos ficavam mais claros.

Em sua mente, as paredes foram se desfazendo. Tijolo sobre tijolo ruiam ao chão. O céu azul, pouco visível acima de si, tomou conta de todo o seu entorno.

Ele abriu os olhos. Sentiu um comichão nas costas. Sorriu para a salamandra.

Abriu as asas que esqueceu que tinha e voou para fora do labirinto.

18.1.17

Devoradora de Mundos

Devo ser algum tipo de assassina serial de homens, que escolhe os fracos, suga toda a sua energia vital e os deixa morrer, lentamente, enquanto eu triunfo. Deve ter alguma coisa a ver com minha vênus em escorpião e minha lua em áries que devora tudo e quer tudo junto, agora. Deve ter. Não aguento esperar, amar aos pouquinhos, odeio dividir. Os homens que me adoravam, passavam semanas comigo, nossa, você é tão especial, é perfeita, mas amor? Amor é outra coisa. Melhor esperar pro amor de verdade vir. E o amor de verdade não está aqui. Com certeza tem a ver com meus pais que também nunca se amaram. E eu, aprendendo com quem sempre me deu o melhor exemplo, continuo incapaz de receber amor, vivendo de migalhas, aceitando o que sobra pelo caminho. Fingindo que o amor é outra coisa, que não faz diferença. Eu sei lá o que é amor. Melhor ler Bauman e parar de chorar sozinha no banheiro. Melhor continuar devorando os homens. Um por um e suas energias vitais. Algum dia serei a grande besta das galáxias, reinando suprema e me alimentando de todas as vidas que engoli.

22.12.16

2016 na verdade foi maravilhoso

Acho que faz mais de 10 anos que eu escrevo posts sobre o fim do ano, fazendo um grande apanhado de tudo que aconteceu. Esse ano vira com mercúrio retrógrado, então é ainda mais propício para a reflexão. Todo mundo está dizendo que 2016 foi uma merda, mas para mim, sinceramente, foi o melhor ano da minha vida. Ano passado meu arcano foi o Heremita invertido. Eu sairia da minha toca. E saí mesmo. Vamos ver o que o ano que vem vai trazer.

Eu comecei saindo de um emprego que eu odiava para ir para outro em que eu ganharia melhor. Acabou que o emprego novo era bem ruim também, mas conheci pessoas incríveis, aprendi meus limites e consegui juntar algum dinheiro. Terminei meu mestrado enquanto trabalhava no segundo emprego que sugava minha alma, publiquei minha dissertação que tem capa e tudo como um primeiro livro. Chorei igual uma idiota na gráfica.

Defendi meu mestrado e descobri que deveria ter seguido com minhas ideias originais. Peguei meu diploma semana passada. Entrei para um curso de escrita criativa que era uma coisa que eu sempre quis fazer. Aprendi a seguir minha intuição e a confiar mais em mim mesma. Aprendi a ter coragem de finalmente me assumir como artista em vez de só dizer que às vezes eu escrevo umas coisas e faço uns filmes de vez em quando. Conheci pessoas incríveis que vou levar pra vida inteira. Finalmente encontrei minha turma.

Depois de decepções desde 2014, lancei minha primeira websérie com amigos incrivelmente talentosos. Nunca tive tanto orgulho de uma direção de arte que eu mesma fiz. O Dilemas de Gente Branca ficou melhor do que imaginava que ficaria e isso nunca acontece. Sobrevivemos por 6 meses e ainda temos episódios arquivados. 26 fucking episódios. Vinte e seis. É uma temporada inteira de Friends.

Comecei a escrever uma newsletter das coisas que eu fiz e das coisas que encontrei por aí. Escrevi muitas matérias sobre mulheres incríveis no Minas Nerds. Fiz dois zines. Um meio bosta com um conto antigo, outro dobradinho e mais lindinho de poesias. Fiz dois lambes com poemas meus. Vendi minhas coisas em feiras de publicações independentes. Quis abraçar todo mundo que comprou minhas coisas. Colaborei com muita gente talentosa. Tive coragem de mandar minhas histórias para revistas e concursos e editoras.

Viajei para Nova Iorque com minha irmã. Fez muito calor, fomos nos museus dos meus sonhos, vimos um musical na Broadway, comi um montão de bagels, fomos no maior museu de miniaturas de trem do mundo, passamos Shabbat em uma sinagoga, assistimos uma luta de UFC em um sportsbar kosher no Brooklyn, vimos uma cantora lírica cantando no Central Park, fugimos de um bêbado no metrô, nos perdemos muito porque eu não sei ler mapas, agradeci aos céus porque minha irmã sabe ler mapas, conheci o bebê mais lindo do mundo, fiquei com vontade de ter uma sobrinha e andamos até ficarmos exaustas.

Me apaixonei, tive meu coração partido. Chorei por quase dois meses. Tive o melhor relacionamento da minha vida, o mais honesto, o mais carinhoso, o mais livre, o mais estimulante.

Tirei os sisos, tirei os pólipos de dentro do nariz, não tive que fazer a terceira cirurgia por um milagre da natureza. Minha cabeça parou de doer, consigo abrir bastante a boca agora, consigo respirar melhor, minha voz está mais bonita. Parece que deixei tudo que me segurava para trás.

Escrevi um livro. Escrevi um fucking livro de 95 páginas. Um livro de 95 páginas que fez as pessoas chorarem e terem pesadelos e me adicionarem no Facebook sem saber quem eu sou. Finalmente acredito que sou, sim, boa o suficiente.

Comprei um sem número de roseiras. Algumas caíram da janela, outras morreram. A última, da cor certa, do tamanho certo, finalmente pegou. Só falta voltar a dar flores.

Comprei uma caralhada de livros novos. Peguei outros emprestados. Li vários autores novo. Alguns entraram na lista de preferidos.

Vi meu primo casar depois de 12 anos, vi minha irmã experimentar seu vestido de noiva, vi meu irmão se tornar médico.

Aprendi a pedir e a aceitar ajuda. Sempre que eu precisei de dinheiro, o dinheiro veio.

Voltei a gostar de fotografia.

Ontem fiz o meu primeiro esfoliante caseiro.

Foi um ano do caralho.