7.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 41

Gozar entre seus seios sempre foi um prazer especial. Abrir caminhos, preencher buracos. O sexo depois da briga tinha que ser ainda mais especial. Antonio se empurrou sobre o esterno de Ana. Forçou-se na carne frágil, entre as costelas. Queria entrar nela, como nunca tinha entrado. Abrir a pele, meter entre as fibras da carne.

– Eu te amo, Ana.

Puxou seu corpo endurecido para frente e para trás sobre seu próprio corpo, as pernas ainda mergulhadas no formol. A cabeça pendia para trás, a boca aberta, seus olhos ocos encarando o teto do banheiro.

Esfregou o pau no seu coração murcho, deslocou seus pulmões e seu fígado. Despedaçou seus órgãos internos podres com a intensidade de seu desejo.

– Nunca vou te abandonar, Ana. Nunca.

 
Esse capítulo faz parte de Carregue meu Cadáver, o livro que estou escrevendo sobre relacionamentos abusivos. Vou postar um capítulo por dia até acabar.
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6.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 40

– O Google disse que é essa casa aqui, tia. - disse Gabriela.

As horas e horas que Gabriela passava no celular finalmente tinham valido a pena. Cruzando os dados de todos os traços virtuais de Ana, tinha conseguido mapear o que ela acreditava ser a casa de Antonio.

Ela e Taís estavam nervosas. Paulina estava lívida. Como sempre, as mulheres estavam munidas apenas da própria coragem.

Bateram na porta.

Silêncio.

Tocaram a campainha.

A grama ao redor da casa secou enquanto esperavam do lado de fora.

Paulina tocou a campainha insistentemente.

A porta se abriu.

Gabriela desejou muito que a senhora que tinha acabado de abrir a porta limpasse a maquiagem azul borrada abaixo dos olhos.

– B-boa tarde? - disse a senhora.

– É aqui que mora o Antonio? - perguntou Paulina, como uma general do exército sem paciência depois de ver mil de seus homens morrerem em batalha.

– O que vocês querem com meu filho? - respondeu Dona Bete.


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5.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 39

Os dias foram passando até que Antonio não conseguiu mais ignorar a presença pungente de Ana na sua banheira de formal. A culpa por tê-la abandonado pesava como uma estátua fúnebre sobre seus pulmões. Ele se ajoelhou ao lado da banheira e desenhou círculos na superfície do formol. A carcaça de Ana boiava tranquilamente, suas mãos a centímetros dos dedos de Antonio.

Antonio respirou profundamente, dono de todo o tempo do mundo.

– Desculpa ter te abandonado, Ana - ele disse, devagar, segurando a mão morta da garota - Foi o que eu precisava fazer.

Antonio nunca tinha se sentido tão sozinho na presença de Ana. Era como se ela nem estivesse lá.

– Me desculpe - ele insistiu - Por favor.

Antonio virou o corpo dentro da banheira. Ele removeu delicadamente os fiapos escassos de cabelo que envolviam seu rosto. Olhou profundamente nos buracos onde estiveram seus olhos.

– Estou com saudades, Ana.

A pele de Ana estava toda cinza e enrugada, repuxada sobre a carne que quase não existia mais.

Antonio a puxou para fora da banheira e a envolveu em seus braços. Sentiu a memória do cheiro de sol em seus cabelos, a memória de sua pele quente e o toque dos seus seios que um dia foram tão macios.

Antonio tirou sua blusa devagar.

– Como eu pude te abandonar, Ana?

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1.12.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 38

 – Não acredito que seu pai não acreditou em você - disse Taís.

– Ele nunca acredita - respondeu Gabriela.

– E a tia Paulina?

– Ficou louca. Disse que era caso de polícia.

– Ainda bem que a gente tá aqui.

Taís tomou um gole da água morna do copo de plástico frágil, com cuidado para não amassá-lo e molhar toda a roupa. Era engraçado como órgãos públicos pareciam sempre estar uma década atrasados. As divisórias brancas, os telefones fixos, as impressoras barulhentas. Taís achou até que tinha ouvido um fax. Gabriela se acomodou melhor no banco de espuma.

– Será que ainda vai demorar muito?

As meninas logo viram Paulina, ainda mais alterada que o normal, saindo do escritório acompanhanda de três policiais. Um homem fardado segurando cada um de seus braços, a forçando para o corredor. O terceiro policial, de terno, falava com voz mansa:

– Mas, senhora, eu já te expliquei, nós não podemos fazer mais nada.

– É assassinato! Agressão! Lei Maria da Penha! - Paulina era incapaz de manter o tom de voz baixo mesmo em dias comuns. - Vocês precisam me ajudar!

– A senhora já preencheu o B.O. Nem soube nos dizer um endereço ou a data. Nós prometemos fazer o que for possível.

– É minha filha!

– Com todo o respeito, minha senhora, o que você acha que ela pode ter feito para que ele tivesse que fazer isso?

– Que diferença isso faz? - interveio Taís, do outro lado da delegacia.

Os policiais soltaram Paulina no corredor.

– Tenha um bom dia, senhora. - disse o policial sem farda, ignorando Taís. - E que Deus a proteja.

– Pelo menos ele, né?

Paulina pegou as duas meninas pelo braço e as arrastou para fora do prédio. Gabriela sentiu as unhas da mulher enterradas em sua pele, seus batimentos cardíacos pulsando nos dedos.

– Esses homens nunca vão ajudar a gente.

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29.11.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 37

Melina tinha bochechas grandes e olhos verdes.

- Você mora com sua mãe? Que fofo! - ela disse, levemente embriagada.

- É ela que mora comigo.

Os dois riram. Antonio indicou o caminho para o seu quarto no porão. Melina tropeçou. Os dois voltaram a rir, mais alto dessa vez. Ele nunca se importava em fazer pouco barulho. Dona Bete nunca tinha reclamado, embora ele soubesse do seu sono leve.

- Tá um cheiro esquisito aqui. - ela disse, logo que entrou no porão - Você tá precisando mesmo de uma mulher, né?

- Tô, sim.

Antonio a puxou pela braço. Mais tarde, ela perceberia a mancha roxa. Ele puxou o cabelo da nuca de Melina, forçando seu rosto para cima. Se beijaram violentamente, um beijo cheio de dentes. Melina gostava de amores brutos. Gostava de sentir o poder apertando seus braços e seus seios, a fúria de ter suas roupas quase rasgadas para fora do corpo, o desejo entre as pernas. Por alguns momentos, se sentia insubstituível, perseguida por um animal morto de fome.

Mas Melina também precisava muito usar o banheiro. Rindo, se desculpou e perguntou onde era. Antonio a abraçou mais forte, acariciou seu sexo para que ela não fosse embora. Mas Melina realmente precisava ir ao banheiro. Tinha ficado tempo demais no bar. Desvencilhou-se de Antonio e se dirigiu para a única outra porta do recinto. Antonio começou a ir atrás dela, rindo. Ela chegou mais rápido e fechou a porta atrás dela.

O cheiro era ainda mais forte dentro do banheiro. Ele realmente precisava que alguém limpasse aquele lugar. Será que ele não tinha mãe?

Melina fez xixi e limpou o lápis do olho que sempre borrava no cantinho. De sutiã, começou a arrumar o cabelo. Percebeu a cortina da banheira. Será que o cheiro vinha de lá?

- Meliii-na!

Desde o bar, Antonio tinha adquirido o costume de chamá-la cantando.

- Por que você tá demorando tanto, Meliii-na?

Melina andou até a cortina. O cheiro era nauseante. Com certeza vinha de lá. Puxou a cortina.

- Meliiii-naaa! Tô aqui de pau duro te esperando, Meliii-naaa!

Melina abriu a porta com força, empurrou Antonio. A adrenalina tinha cancelado o efeito do álcool.

- Tem uma mulher morta na banheira, seu monstro!

Ela correu pelo quarto catando suas roupas pelo chão.

- Ela não tá morta, linda, ela tá só dormindo!

Melina subiu as escadas com passos pesados. Colocou o vestido enquanto andava.

Antonio correu atrás dela, segurou a porta da frente com a mão.

- Fica, Melina. Que isso? Não tem ninguém na banheira!

- Me deixa sair a-go-ra!

- Não grita que você acorda minha mãe.

- Me deixa sair. Eu não vou ser o próximo corpo na sua banheira.

Ela bateu no braço dele, destrancou a porta e saiu.

Na escuridão, Antonio viu que ela discava qualquer coisa no celular. Torceu para ser um táxi, mesmo sabendo que era pouco provável. Pelo menos ele tinha beijado uma menina de olhos verdes.

Voltou para o quarto, entrou no banheiro e viu a cortina escancarada. Ana continuava boiando lá dentro, esquelética, agora sem um dos pés.

- Porra, Ana. - disse Antonio, sem se preocupar em acordar a mãe. - Você sempre estraga tudo.

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28.11.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 36

Chorando, Gabriela pegou o telefone da bolsa. Apertou a tela com as mãos tremendo.

– Tia Paulina? Eu sei onde sua filha está.

Gabriela afastou o celular do rosto. Durante o que pareciam horas, a voz de Paulina atravessava o alto falante e ressoava estridentemente pelo quarto. Gabriela se lembrou do motivo de nunca ter passado mais tardes na casa de Ana. 

Gabriela desejou poder passar pelo menos mais uma tarde na casa de Ana.

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25.11.16

Carregue meu Cadáver - Capítulo 35

Antonio gostava que Ana ficasse quietinha enquanto ele fazia o que tinha para fazer. E poderia tirá-la do seu lugar sempre que quisesse. Era maravilhoso. Principalmente agora, que ele estava começando a se cansar dela. Amor, é claro, sempre existia, mas ele começava a se questionar o que mais poderia haver no mundo, além do seu corpinho pequeno. Ele nunca tinha beijado uma mulher de olhos verdes.

Olhou-a dentro da banheira, o rosto virado para baixo, as roupas boianho na superfície do formol. O cheiro. Tinha isso também. Não havia mais perfume que bloqueasse aquele cheiro. Os tornozelos boiavam para fora da água. Ainda macios, as plantas e os dedos permaneciam submersos como a cauda de uma sereia. Apesar de seus muitos defeitos, seu pés eram perfeitos.

Antonio deslizou o dedo indicador pela planta dos pés molhados. Como era bom ter uma namorada desmontável.

Ele voltou para o sofá. Ligou a TV num pornô qualquer. Uma mulher completamente diferente de Ana. Bochechas grandes e olhos verdes. Mais parecida com sua ex-namorada. Gostava dos pés de Ana. Abriu o zíper da calça e se acariciou com os dedos mortos. Viva, Ana sempre reclamava que estava desconfortável. Era muito melhor sem o resto do corpo.

 
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